Body Horror invade os mangás: a ascensão do shōnen sombrio em 2026

O cenário dos mangás shōnen, tradicionalmente associado a aventuras e superação, está passando por uma transformação radical e visceral neste ano de 2026. A onda atual, liderada por autores como Tatsuki Fujimoto (Chainsaw Man) e Gege Akutami (Jujutsu Kaisen), mergulha em temas adultos e usa o body horror – a violação grotesca do corpo – como ferramenta narrativa central. Esse fenômeno, que ganhou força com a plataforma digital Jump+, reflete um público leitor que amadureceu junto com o gênero e agora busca histórias com consequências permanentes e uma crueza visual sem precedentes.
Essa revolução silenciosa não aconteceu do dia para a noite, mas é o resultado de uma evolução gradual. Desde os momentos sombrios em clássicos como Dragon Ball e One Piece, o shōnen sempre flertou com a escuridão. No entanto, a diferença agora está na intensidade e na centralidade desses elementos. Devido à liberdade criativa da publicação digital e a uma faixa etária de leitores mais velha – onde 27,4% têm 25 anos ou mais –, a violência gráfica e a exploração psicológica deixaram de ser pano de fundo para se tornarem a própria trama. Dessa forma, assistimos a um renascimento do gênero, que dialoga diretamente com as angústias e a maturidade de seu público atual.
A Linhagem do Horror e o “Dark Trio”
A semente do shōnen sombrio foi plantada há tempos, com obras como Bleach sendo considerada uma protoforma do gênero. No entanto, foi com a chegada do que ficou conhecido como “Dark Trio” – Jujutsu Kaisen, Chainsaw Man e Hell’s Paradise: Jigokuraku – que o movimento ganhou corpo e definição. Enquanto isso, a violência nestas histórias não é apenas estética, mas carrega peso temático. Em Chainsaw Man, por exemplo, o horror corporal está ligado ao trauma e aos desejos distorcidos do protagonista Denji, criando uma narrativa absurdista e profundamente perturbadora.
Por outro lado, essa tendência não se limita à Weekly Shōnen Jump. Obras como Attack on Titan e o recente Gachiakuta, publicado na concorrente Weekly Shōnen Magazine, mostram que a sede por narrativas mais cruas é um movimento da indústria. Gachiakuta, em particular, combina uma arte impressionante com graffiti para retratar um mundo de lixo e desigualdade social, provando que o “escuro” vai além do gore. Além disso, essa guinada lembra o movimento gekiga dos anos 60, que também buscou trazer complexidade e maturidade para as histórias em quadrinhos japonesas, adaptando-se agora para a geração que cresceu com Naruto e Luffy.
O Corpo como Página do Trauma
O elemento que realmente define essa nova leva é o uso deliberado do body horror. Não se trata apenas de mostrar sangue, mas de violar o corpo de formas que causam desconforto psicológico e reforçam a gravidade das consequências. Em Jujutsu Kaisen, a morte brutal da personagem Nobara, com um buraco explodindo em seu rosto, é um exemplo chocante. Da mesma forma, em Hell’s Paradise, a beleza macabra de corpos transformados em flora demonstra como a linha entre o horrível e o belo pode ser tênue. Portanto, o corpo deixa de ser um invólucro para se tornar um mapa de trauma, perda e violência inescapável.
Assim, o que estamos testemunhando em 2026 é mais do que uma moda passageira. É um amadurecimento natural de um gênero, guiado por artistas que desafiam as convenções e por um público que não tem mais medo de encarar as sombras. Dessa forma, o futuro do shōnen parece ser um ecossistema mais diverso, onde histórias de amizade e superação podem coexistir com narrativas que investigam, com brutal honestidade, os limites da condição humana. A revolução do body horror chegou, e ela veio para ficar, esculpindo seu espaço com a lâmina afiada das novas gerações de mangakás.









