Neto de ditador sul-coreano usa webtoon para relatar infância traumática

Woo-won Chun, neto de 29 anos do ex-ditador sul-coreano Chun Doo-hwan, transformou sua dor em arte digital e, desde 4 de dezembro de 2025, vem publicando episódios de um webtoon baseado em suas memórias de infância. A história, que já conta com 14 capítulos, é postada em sua conta no Instagram e usa uma narrativa simbólica poderosa para retratar o sofrimento emocional e físico que alega ter vivido dentro da própria família. Este relato ganha relevância mundial não apenas por expor as feridas de um herdeiro, mas por rasgar o véu de uma das dinastias políticas mais controversas da Coreia do Sul, cujo patriarca é amplamente visto como um ditador responsável por repressões violentas.
Na obra, Woo-won se representa como um cordeiro branco chamado “Monggeuli”, enquanto seus familiares são retratados como ovelhas negras com olhos vermelhos e chifres, vivendo em uma fortaleza gelada que simboliza a mansão da família em Seul. Através dessa alegoria, ele detalha cenas de abuso, incluindo uma em que seu avô o agride durante uma longa viagem de carro. Além disso, o webtoon aborda conflitos familiares profundos, como o caso extraconjugal de seu pai, Jae-yong Chun, que se envolveu com uma atriz enquanto a mãe de Woo-won lutava contra um câncer. Dessa forma, o projeto artístico se torna um ato público de acerto de contas com um passado conturbado.
Um passado que não silencia
A decisão de Woo-won Chun de usar um webtoon, formato imensamente popular na Coreia do Sul, não é um capítulo isolado em sua vida. Em 2023, ele já havia chocado o país ao chamar publicamente seu avô de “assassino em massa” e prometer revelar os crimes da família. Naquele mesmo ano, o jovem recebeu uma sentença de prisão suspensa por acusações relacionadas a drogas, um episódio que também manchou sua trajetória. No entanto, apesar dos próprios problemas legais, sua voz emerge como um contraponto sombrio à narrativa oficial sobre o legado do avô, que governou o país com mão de ferro entre 1980 e 1988.
Enquanto isso, a suspeita de que as artes sejam geradas por inteligência artificial, levantada por veículos locais, adiciona uma camada moderna a um drama familiar antigo. Se confirmada, a técnica mostraria como ferramentas digitais contemporâneas podem servir para dar voz a traumas históricos. O caso levanta questões sobre até que ponto as feridas de um regime autoritário podem se estender através das gerações, transformando a arte em um veículo de denúncia e sobrevivência. Portanto, mais do que uma simples HQ, o webtoon de Woo-won Chun é um documento psicológico e político, que ressoa com qualquer pessoa que entenda o peso de uma herdade familiar difícil.









