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Stargate SG-1: 'The Other Side' é o episódio mais sombrio

Retrospectiva explica por que 'The Other Side', episódio da 4ª temporada de Stargate SG-1, segue com um dos finais mais sombrios já vistos na TV de sci-fi.

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Richard Dean Anderson como Jack O'Neill na série Stargate SG-1

Em "The Other Side" (4ª temporada, episódio 2, exibido nos EUA em 7 de julho de 2000), a equipe do Comando Stargate conhece a primeira civilização disposta a compartilhar tecnologia avançada com a Terra — e, antes do fim da hora, descobre que o chamado de socorro veio de um povo racista em guerra de limpeza genética. Quem decide o desfecho é o coronel Jack O'Neill (Richard Dean Anderson). O que ele faz, comprovadas as verdades que tinha preferido ignorar, é sabotar o escudo dos aliados, entregar a base deles ao inimigo e deixar o líder Alar morrer contra a íris da porta-estelar. Onde tudo acontece é no planeta Euronda e no Stargate Command; quando, no início da 4ª temporada de Stargate SG-1; como, por meio de um pacto comercial que se revela conivência; por quê o episódio segue citado como o mais sombrio da franquia — porque mostra que a leveza habitual da série podia, em cinquenta minutos, ceder lugar ao cinza moral mais denso já levado ao ar em Stargate. O portal CBR publicou uma análise recente que retorna ao episódio e reacendeu o debate entre os fãs.

Richard Dean Anderson como Jack O'Neill na série Stargate SG-1
Richard Dean Anderson interpretou o coronel O'Neill nas dez temporadas da série. (Foto: Divulgação / MGM)

Por que "The Other Side" ainda é o ponto mais baixo de Stargate SG-1

Stargate SG-1 sempre equilibrou guerra e perda com humor e resiliência. A série acompanha a unidade SG-1 — comandada por O'Neill, com a major Sam Carter (Amanda Tapping), o jaffa Teal'c (Christopher Judge) e o arqueólogo Daniel Jackson (Michael Shanks) — percorrendo um mundo atrás do outro atrás de aliados e tecnologia contra os Goa'uld. É justamente esse padrão de leveza que torna "The Other Side" um divisor de águas da 4ª temporada: o episódio começa como uma promessa de prosperidade e termina com a equipe pior do que começou, cúmplice de um quase genocídio.

Não foi uma hora descartável. Escrito por Brad Wright e dirigido por Peter DeLuise, o roteiro usou uma premissa de mercado — sim, de comércio — para colocar diante de O'Neill a pergunta que a série evitava fazer: quanto vale a tecnologia do vizinho quando quem a vende é um monstro?

O programa Stargate foi criado justamente para coletar tecnologia

O filme Stargate (1994) levou Daniel Jackson e O'Neill ao planeta Abydos, onde o comando derrota a ameaça de Ra explodindo sua nave com um míssil nuclear. No piloto em duas partes da série, "Children of the Gods", os Goa'uld voltam à Terra, sequestram uma oficial e matam os homens estacionados na base — e a Força Aérea americana cria o programa Stargate com um duplo objetivo: encontrar aliados e obter tecnologia para defender o planeta.

Em três temporadas, porém, a Terra quase sempre batia na mesma porta fechada diante das civilizações mais avançadas da galáxia:

Foi aí que, já na abertura da 4ª temporada, o SGC recebeu cinco discagens seguidas de um mundo desconhecido em pouco mais de uma hora: alguém, pela primeira vez, discou para a Terra pedindo ajuda.

O'Neill experimenta a interface neural de pilotagem remota dos eurondanos
O'Neill testa a interface neural de pilotagem remota que seduz o programa. (Foto: Divulgação / MGM)

O que os eurondanos vinham negociar

Ao chegar a Euronda, o SG-1 encontra um mundo com superfície tóxica e uma base subterrânea em guerra há décadas. A civilização é, segundo Carter, um século mais avançada que a Terra, e o líder Alar (René Auberjonois, o Odo de Deep Space Nine) oferece um pacote tentador: tecnologia médica e bélica em troca de água pesada — o deutério que alimenta seus reatores de fusão e o escudo que protege milhares de pessoas dormindo em câmaras de estase. Sem água pesada, os bombardeios vencerão a defesa, e todos morrerão.

O que estava sobre a mesa:

O'Neill fica ansioso para fechar o acordo. Daniel, não.

Daniel Jackson, a bússola moral do SG-1

Como único civil da equipe, Daniel desempenha rotineiramente o papel de consciência moral do SG-1. No episódio, ele tenta perguntar aos eurondanos quem é o inimigo e por que lutam — e O'Neill, tomado pelo entusiasmo da negociação, o interrompe. De volta à Terra com Carter para buscar a primeira carga de água, Daniel expõe o dilema ao general Hammond:

"Você disse que não podíamos e não iríamos alocar os recursos necessários para vencer uma guerra. Se pudermos fornecer tudo isso e mais na forma de água, a questão moral simplesmente evapora?" — Daniel Jackson

Hammond argumenta que sua objeção diz respeito a recursos militares: pessoal e equipamento. Daniel desfaz a distinção: financiar uma guerra com matéria-prima é financiar uma guerra, e quem tem o poder de virar o jogo precisa saber para quem o está virando. Ele confia em Hammond e em O'Neill — mas se sente obrigado a cobrar dos dois o mesmo padrão que cobram do resto do mundo.

O episódio ainda sustenta a tese da ignorância deliberada com um detalhe mordaz: O'Neill sabe que investigar pode custar a aliança de que a Terra tanto precisa — e escolhe não saber. É o erro que ele cobrará de si mesmo no desfecho.

Daniel Jackson questiona a guerra dos eurondanos em Stargate SG-1
Daniel Jackson cobra respostas enquanto O'Neill prefere fechar o assunto. (Foto: Divulgação / MGM)

"Breeders": a revelação que empurra o episódio para o abismo

O ponto de inflexão começa quando Alar sugere que Teal'c não volte ao planeta, porque o jaffa "não é como nós". O'Neill, que havia silenciado as perguntas de Daniel o dia inteiro, entende na hora que o problema não é Teal'c ser jaffa — é ele ser negro. A partir daí, o líder dá a Daniel o que havia negado logo na chegada: "pergunte. Muitas perguntas".

Questionada por Daniel, Farrell (Anne Marie Loder), a segunda no comando de Alar, só tem um nome para o inimigo: "Breeders" — os reprodutores. E ela entrega o motivo da guerra com frieza cirúrgica:

"Eles se reproduzem indiscriminadamente, sem nenhuma consideração pela pureza genética." — Farrell

Os detalhes corroboram a leitura: nas câmaras de estase, os rostos que O'Neill folheia são todos jovens e de pele clara, e Alar proclama sem disfarce que a geração congelada é "geneticamente pura". Carter descobre por sua vez tubulações que saem dos tanques de armazenamento e sobem até a superfície: os eurondanos construíram a base enterrada antes da guerra em preparação para ela — e então envenenaram o céu para exterminar os "impuros genéticos" do próprio mundo. Técnicamente, o inimigo atacou primeiro; o fez, porém, para impedir que o veneno, criado pelos próprios Eurondanos, fosse liberado de novo.

A guerra que a Terra quase financiou com água pesada era, essencialmente, um projeto de limpeza étnica.

Farrell na sala de guerra dos eurondanos em Stargate SG-1
Farrell resume a guerra em uma palavra: "Breeders". (Foto: Divulgação / MGM)

O desfecho: "Fechem a íris" e a morte de Alar

A resposta de O'Neill não é apenas retirar a equipe — é reparar o dano que quase ajudou a produzir. Usando a interface neural sob o pretexto de "ajudar", ele e Teal'c pilotam os caças eurondanos não contra os bombardeiros inimigos, mas escoltando-os: destruem os defensores pelo caminho e, no final, O'Neill despenca com a própria aeronave sobre o complexo, colapsando o escudo. Daniel e Carter impedem fisicamente que Alar e Farrell atravessem a sala para impedir o plano. O pacto morre ali: sem água pesada, sem tecnologia, sem aliança.

Na fuga pela porta-estelar, O'Neill sabe que Alar tentará vir atrás deles. Do controle do SGC, pede ao Hammond por rádio: "feche a íris". Segundos depois, o computador de discagem registra o impacto de um corpo contra a barreira de titânio: Alar tentou seguir a SG-1 e morreu. Carter fica encarando, sem saber o que dizer, o rosto endurecido do coronel que mandou fechar a passagem. E o episódio termina ali — sem reflexão, sem cena pós-crédito, sem consolo.

É esse movimento final que faz do episódio um marco sombrio: O'Neill passa da ignorância deliberada à determinação destrutiva. Não matou em autodefesa nem no calor da batalha; ordenou friamente a morte de um homem que horas antes estreitava a mão como parceiro. Brad Wright levou o líder carismático da franquia até um ponto sem retorno.

Ficha técnica do episódio

"The Other Side" — Stargate SG-1
Temporada / episódio4ª temporada, episódio 2 (S04E02)
Estreia nos EUA7 de julho de 2000
RoteiroBrad Wright
DireçãoPeter DeLuise
ConvidadosRené Auberjonois (Alar), Anne Marie Loder (Farrell)
Fãs e nota média7,84 no levantamento histórico do GateWorld
Emissoras originaisShowtime / Syfy (1997–2007)

Por que a retrospectiva importa agora

Dois detalhes de contexto tornam a releitura oportuna. Primeiro, a franquia Stargate voltou ao noticiário: a Amazon desenvolve um novo projeto de Stargate criado pela roteirista de WandaVision, Jac Schaeffer, e Michael Shanks, o Daniel Jackson da série, estreou em outubro o podcast "A Full Circle", que revisita os bastidores da produção. Segundo, o dilema central da história envelheceu melhor do que qualquer efeito especial. "The Other Side" fala de barganhar recursos sem conhecer quem se financia: fornecer combustível a uma guerra que você se recusa a entender. A pergunta de Daniel — "a questão moral simplesmente evapora?" — continua aplicável em qualquer mesa de negociação, nos bastidores políticos, na economia ou na diplomacia.

Mais de 25 anos depois, "The Other Side" segue entre os episódios mais comentados da ficção científica na TV, e o baque surdo da íris continua sendo a assinatura de sua lição: um herói bom pode ser levado à ruína moral não por maldade, mas por pressa.

Para mais análises de séries de ficção científica, acompanhe a categoria de Séries da Revista Pixel; ensaios e notícias de cultura pop também na rotação da Cultura Pop.

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