A Bola Negra: épico de Los Javis estreia em Portugal
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Vencedor do prêmio de Melhor Direção em Cannes, o filme de Javier Calvo e Javier Ambrossi chega nesta quinta-feira (5) às salas portuguesas pela Nitrato Filmes.

“A Bola Negra” chega nesta quinta-feira (5) aos cinemas portugueses pela Nitrato Filmes, depois de conquistar o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes 2026 e de se tornar a produção espanhola de maior bilheteria do ano. Dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, os “Los Javis”, o longa cruza as vidas de três homens em 1932, 1937 e 2017, partindo de uma obra inacabada de Federico García Lorca e da peça “La Piedra Oscura”, de Alberto Conejero.
Com cerca de 2h35 de duração e classificação M/14, o filme chega a Portugal em versão original legendada, distribuído pela Nitrato Filmes. A estreia acontece pouco mais de um mês depois de o longa ter vencido o People’s Choice Award do Festival de Toronto, um dos termômetros mais confiáveis da temporada de premiações, e de ter sido escolhido como representante da Espanha na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional.
No Brasil, a Paris Filmes programou o lançamento para 21 de janeiro de 2027. Antes disso, o público português poderá ver o filme em salas como o Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, o Cinema Trindade, no Porto, e as redes NOS e UCI, que já abriram vendas para as primeiras sessões.
Um palmarés construído entre Cannes e o público
“A Bola Negra” teve sua première mundial em 21 de maio de 2026, na competição principal do 79º Festival de Cannes. Na cerimônia de encerramento, Javier Calvo e Javier Ambrossi dividiram o prêmio de Melhor Direção com o polonês Paweł Pawlikowski, responsável por “Fatherland”. Era a primeira vez que a dupla, conhecida por séries como “Paquita Salas”, “Veneno” e “La Mesías”, concorria à Palma de Ouro com um longa de ficção.
A trajetória seguinte mostrou que o júri não estava sozinho. O filme acumulou prêmios do público em festivais de perfis bem diferentes, sinal raro para uma obra de época com três linhas narrativas e quase duas horas e meia de duração. A lista inclui Toronto, San Sebastián, Sydney, Busan e o BFI London Film Festival, cujo Audience Award foi anunciado em 4 de novembro, véspera da estreia portuguesa.
| Festival / instituição | Reconhecimento | Situação |
|---|---|---|
| Cannes 2026 | Melhor Direção (ex aequo) | Venceu |
| Toronto 2026 | People’s Choice Award | Venceu |
| San Sebastián 2026 | Prêmio do Público Cidade de Donostia | Venceu |
| Sydney 2026 | GIO Audience Award | Venceu |
| BFI London 2026 | Audience Award de Melhor Longa | Venceu |
| Academia de Espanha | Corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional | Representante espanhol |
O filme também entrou na lista prévia de 35 títulos de ficção considerados pela Academia Europeia de Cinema para os European Film Awards de 2026. Para uma produção que mistura melodrama, musical, épico de guerra e ensaio sobre memória queer, o conjunto de reconhecimentos ajuda a explicar por que “A Bola Negra” virou um dos títulos mais comentados do ano antes mesmo de chegar a vários países.
Três homens, três Espanhas
A estrutura do filme é declaradamente ambiciosa. Em vez de acompanhar uma única família ou um único período, o roteiro assinado por Calvo, Ambrossi e Conejero propõe três painéis que se iluminam mutuamente. A ligação entre eles não é cronológica, mas afetiva e política: o desejo, a dor e a herança atravessam décadas diferentes e retornam sempre ao mesmo ponto, a dificuldade de dizer quem se é.
1932: a bola negra que exclui
Na Granada de 1932, Carlos, um jovem de família abastada, é recusado na admissão de um clube social exclusivo. A rejeição se dá pelo sistema da “bola negra”, o voto secreto usado para barrar candidatos considerados indesejáveis. No caso dele, o motivo são os rumores sobre sua homossexualidade. Pressionado pelo pai a negar tudo e tentar de novo, Carlos se vê diante de um país que exige que ele esconda sua natureza para pertencer.
O painel dialoga diretamente com a peça inacabada de Lorca e com episódios reais da Espanha republicana, como a Sanjurjada e o incêndio do cassino de Granada, em agosto de 1932. A sequência do clube, com o personagem interpretado por Milo Quifes diante de uma assembleia de homens em uniforme, é uma das imagens mais teatrais do filme — e uma das que melhor resumem seu método: encenar o passado como um ritual que nunca termina.
1937: o guardião do manuscrito
Na Guerra Civil Espanhola, Sebastián, um jovem trompetista de aldeia, sobrevive a um bombardeio e acaba forçado a se alinhar às forças nacionalistas. Ele recebe a missão de vigiar Rafael Rodríguez Rapún, prisioneiro republicano ferido que foi amante de Federico García Lorca e integrou a companhia teatral La Barraca. Entre a desconfiança inicial e a proximidade forçada, Sebastián descobre em Rafael uma porta de entrada para a poesia de Lorca — e para o próprio desejo.
É nesse painel que o filme se aproxima mais abertamente de “La Piedra Oscura”, texto de Alberto Conejero sobre os últimos dias de Rapún. A personagem de Penélope Cruz, a cupletista Nené Romero, também aparece nesse trecho, cantando para as tropas e oferecendo a Sebastián modelos de existência queer que a guerra tenta apagar. O pedido final de Rafael, para que o jovem recupere um manuscrito de “A Bola Negra” num apartamento na Calle de Alcalá, 96, costura o passado ao presente.
2017: o herdeiro
No Madrid contemporâneo, Alberto, historiador e ex-dramaturgo, investiga a dissidência queer na música de Rosa Eskenazi enquanto tenta reconstruir a relação com a mãe, Teresa, interpretada por Lola Dueñas. A morte de um avô materno do qual a família se afastou lhe deixa uma herança improvável: o restante do manuscrito de “A Bola Negra”, tido como perdido. A partir daí, o filme vira uma investigação sobre origem, autenticidade e aquilo que as famílias escolhem não contar.
Alberto é vivido por Carlos González, e seu percurso inclui uma visita a Cantabria, o reencontro com o companheiro de seu avô e uma conversa com a estudiosa Isabelle Durand, papel de Glenn Close. A presença de Isabelle permite ao roteiro discutir o trabalho da memória acadêmica sem transformar o filme num ensaio: ela é uma personagem de carne e osso, com suas próprias perdas, e não apenas uma voz explicativa.
Lorca, Conejero e o manuscrito perdido
O ponto de partida de “A Bola Negra” são quatro páginas sobreviventes de uma obra teatral inacabada de Federico García Lorca. O título remete ao voto de exclusão — a “bola negra” — usado contra um jovem homossexual que tenta entrar num clube social de Granada. Lorca nunca concluiu o texto, e a lacuna se tornou o motor do filme: o que acontece com uma história que não pôde ser contada até o fim?
Para preencher esse vazio, os diretores recorreram a “La Piedra Oscura”, de Alberto Conejero, que reconstrói os últimos dias de Rafael Rodríguez Rapún, e à própria biografia do dramaturgo. Conejero assina o roteiro ao lado de Calvo e Ambrossi, e o personagem Alberto foi concebido como um eco de sua trajetória. O filme também presta homenagem ao hispanista Ian Gibson, biógrafo de Lorca, ao espelhar a origem familiar do estudioso na personagem de Glenn Close.
A produção é da Movistar Plus+ e da Suma Content Films, em coprodução com a El Deseo e a Le Pacte, com participação da Atresmedia. O orçamento girou em torno de 15 milhões de euros, valor alto para o cinema espanhol, e a fotografia de Gris Jordana foi feita em película 35 mm, com câmeras Arricam LT e lentes Panavision Primo. As locações incluíram a aldeia abandonada de Castil de Carrias, Comillas, Lafuente, Granada, Sierra Nevada, Sigüenza, Atenas e Madrid.
A diretora de arte Ana López-Cobos buscou referências em imagens de Raquel Meller, La Fornarina e Tórtola Valencia para compor o visual de Nené. Penélope Cruz, por sua vez, estudou Olga Ramos e ensaiou com a filha da cantora, Olga María. O cuidado com a cultura popular espanhola não é decorativo: as músicas, os figurinos e os gestos das cupletistas funcionam como uma contra-história afetiva da repressão.
Fenômeno de bilheteria e temporada de prêmios
Em Espanha, “A Bola Negra” estreou em 25 de setembro de 2026 pela Elastica e rapidamente se tornou um fenômeno. O filme ultrapassou 5,5 milhões de espectadores e 36,7 milhões de euros de bilheteria no mercado doméstico, segundo dados compilados pela imprensa especializada. É o filme mais visto de 2026 no país, a maior arrecadação da história da Elastica e um dos títulos espanhóis de maior público de sempre.
O desempenho surpreendeu quem previa que o formato de três narrativas e a duração longa limitariam o alcance comercial. A combinação de críticas fortes, boca a boca e o chamado efeito FOMO — o medo de ficar de fora do acontecimento — transformou o lançamento numa espécie de evento cultural. Nos Estados Unidos, a Netflix venceu uma disputa com A24, Mubi e Neon pelos direitos e programou uma janela de 47 dias entre a estreia em salas, em 16 de outubro, e o streaming, em 2 de dezembro. É a maior janela teatral já concedida pela plataforma a um filme seu.
No Brasil, a Paris Filmes marcou a estreia para 21 de janeiro de 2027. Em Portugal, a Nitrato Filmes aposta numa rollout gradual, com sessões concentradas nas grandes cidades e circulação posterior por cinemas independentes. A expectativa é que o boca a boca se repita entre o público português, especialmente entre quem acompanha a temporada de premiações.
Elenco: de Penélope Cruz a Guitarricadelafuente
O elenco combina estrelas internacionais, jovens atores e nomes da música espanhola. Guitarricadelafuente, um dos artistas mais populares da nova geração espanhola, faz sua estreia como ator no papel de Sebastián. Miguel Bernardeau interpreta Rafael Rodríguez Rapún; Carlos González dá vida a Alberto; Milo Quifes é Carlos; Lola Dueñas é Teresa; Penélope Cruz vive Nené Romero; e Glenn Close interpreta Isabelle Durand.
- Guitarricadelafuente — Sebastián, trompetista e guarda do prisioneiro Rafael
- Miguel Bernardeau — Rafael Rodríguez Rapún, ex-amante de Lorca e membro de La Barraca
- Carlos González — Alberto, historiador que herda o manuscrito
- Milo Quifes — Carlos, jovem rejeitado pelo clube social em 1932
- Lola Dueñas — Teresa, mãe de Alberto
- Penélope Cruz — Nené Romero, cupletista que se apresenta para as tropas
- Glenn Close — Isabelle Durand, estudiosa de Lorca
- Antonio de la Torre — Vicente, pai de Carlos
- Natalia de Molina — Valentina, irmã de Carlos
- Alberto Cortés — Federico García Lorca
O filme também reserva participações para nomes como Albert Pla, Mona Martínez, Julio Torres, Lorenzo Zurzolo, Yenesi e Judeline, que interpreta uma versão de “Soldadito español”. A trilha sonora, assinada por Raül Refree, tem 24 faixas e foi lançada pela Lakeshore Records em 16 de outubro. Guitarricadelafuente canta “La nieve”, canção que coescreveu com Refree e que aparece numa das cenas finais.
O que diz a crítica
A recepção crítica foi majoritariamente positiva, com elogios à ambição visual, ao elenco e à capacidade de emocionar, mas também com ressalvas ao excesso e à extensão. No Rotten Tomatoes, o filme tem 86% de aprovação entre 136 críticas, com nota média de 8,4/10. No Metacritic, a pontuação é 77/100, baseada em 33 avaliações, o que indica “críticas geralmente favoráveis”.
Peter Bradshaw, do The Guardian, deu 4 de 5 estrelas e descreveu o filme como “ricamente recompensador”, com “produção elegante, detalhada com carinho e construída com confiança”. Richard Lawson, do The Hollywood Reporter, falou em “uma mistura deslumbrante de sensibilidade pop contemporânea e cinema clássico”. Já Guy Lodge, da Variety, criticou o que considerou um “melodrama inchado e empolado”, lembrando que o entusiasmo não foi unânime.
“A violência nem sempre está naquilo que fazemos, mas naquilo que deixamos por dizer.”
A frase resume o eixo do filme: mais do que mostrar agressões, “A Bola Negra” se interessa pelos silêncios, pelos telefonemas que não se completam e pelas mãos que hesitam antes de tocar a campainha. É uma escolha que agrada a quem prefere melodrama e emoção a uma reconstrução histórica rígida, e que incomoda quem gostaria de ver as três épocas mais entrelaçadas.
“Quase tudo neste filme soa verdadeiro. Mas, acima de tudo, tem atmosfera e emoção.”
Para o público brasileiro, acostumado a ver a Espanha cinematográfica pelas lentes de Almodóvar, o filme oferece outro registro: mais teatral, mais musical, mais interessado em rituais coletivos do que em núcleos familiares fechados. A presença de El Deseo, produtora de Almodóvar, na coprodução não é acidental — há um diálogo claro com essa tradição, mas também uma vontade de esticá-la para outros territórios.
Onde ver e o que esperar
“A Bola Negra” estreia em Portugal nesta quinta-feira, 5 de novembro, com sessões em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Setúbal e Figueira da Foz, entre outras praças. A versão exibida é a original, em espanhol, com legendas em português. A classificação é M/14, e a duração confirmada pelas salas portuguesas é de 2h35.
Para quem acompanha a corrida ao Óscar, o filme é peça central: representa a Espanha na categoria de Melhor Filme Internacional e chega ao circuito depois de uma campanha norte-americana conduzida pela Netflix, com lançamento em salas antes do streaming. A escolha da Academia espanhola, somada aos prêmios do público em Toronto, San Sebastián, Sydney e Londres, coloca “A Bola Negra” entre os títulos mais fortes da temporada.
Para quem só quer saber se vale a pena, a resposta depende do apetite. É um filme longo, assumidamente melodramático e cheio de música, que pede entrega ao ritual. Quem entrar esperando uma biografia convencional de Lorca pode estranhar; quem aceitar o convite para atravessar três épocas por meio de corpos, canções e manuscritos encontrará um dos filmes mais singulares do ano. Mais informações e horários estão disponíveis nas bilheterias dos cinemas e na página oficial do filme no Festival de Cannes. O lançamento português tem apoio da RTP Antena 1, que destacou a estreia em sua programação.
O lançamento português também serve de aquecimento para a temporada brasileira: com estreia marcada para 21 de janeiro de 2027 pela Paris Filmes, “A Bola Negra” deve chegar ao Brasil com o peso de seus prêmios e a curiosidade em torno da adaptação de Lorca. Até lá, o público pode acompanhar outras estreias de cinema na seção de Filmes da Revista Pixel e conferir o calendário de lançamentos do streaming em nossa prévia da Netflix em novembro.